Sui Generis
por
Jornal Júnior
8 de junho de 2010
Palestra de abertura traz à tona aspectos sobre integração da América Latina e os desafios de uns dos países mais conturbados do mundo
O “Fóruns 2010 – aproximando culturas e cultivando o respeito” recebeu na noite de ontem, 7, em sua primeira discussão o embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean. O auditório da Unesp de Marília foi palco para que delegados da Simulação da OEA e diversos alunos de Relações Internacionais pudessem conhecer as diretrizes do evento e terem uma visão panorâmica do país caribenho, representado por seu embaixador.
A explanação sobre o Haiti começou após o Secretário Geral do Fóruns, Ruan Sales, e o coordenador geral discente do Grupo de Estudos em Organizações, GEO, Felipe Mesquita, definirem como eixo norteador das discussões – realizadas após a mesa inicial – o desafio de contribuir de forma efetiva para construção de uma sociedade mais justa, preocupada com a “descoberta do outro”. “Muitos dos principais problemas da humanidade são decorrentes da falta de alteridade dos indivíduos que, por vezes, culminam no desrespeito, na discriminação, na intolerância. Essa constatação é bastante para que busquemos a dita aproximação de culturas.” disse Ruan.
Idalbert Pierre-Jean foi categórico: “O Haiti é um país sui generis.” Segundo o embaixador, não é possível fazer uma análise da atual situação do país sem uma retomada nas tramas e peripécias que moldaram a história de um dos estados de situação mais crítica do planeta.
O Haiti sofreu profundamente com as consequências de sua independência – foi o segundo na América Latina -, pois não tinha aparato técnico para suportar uma emancipação tão drástica da metrópole. “Foi uma revolução de escravos. Vocês nem imaginam o que isso implica.” As sanções, como embargos e bloqueios econômicos, feitos pelos colonizadores no século XIX, segundo Idalbert, são um dos principais motivos pelas dificuldades sociais que cruzaram dois séculos e explodiram no fatídico terremoto no começo deste ano. “Ficamos de ‘quarentena’ das grandes potências por quase dois séculos, afirma o embaixador.
Todavia, Idalbert não aceita o termo “país falido”. Segundo seus princípios científicos - ou até morais -, não se pode caracterizar uma nação “acabada” se ela ainda reúne condições políticas e sociais capazes de ter representatividade frente ao povo e aos demais países do mundo.
Os problemas pontuais
O Haiti é um país absolutamente dependente do capital estrangeiro. Segundo Idalbert, a falta de uma economia interna consolidada e falta de investimentos dos próprios haitianos fazem com que o país não consiga caminhar com suas próprias pernas. “A classe média tem um papel importante nessa situação, pois eles pensam em ganhar dinheiro, se consolidar e abandonar a ilha. Ou seja, eles fazem o capital e o levam embora deixando o nosso país jogado ao seu próprio destino”, explana Idalbert.
O embaixador se declarou um pesquisador e diplomata crítico frente aos problemas haitianos e polemizou ao afirmar que não se considera um nacionalista. “Nacionalismo e o facismo estão muito perto um do outro. Um passo ao lado você está no facismo, um passo ao outro lado você está no nacionalismo. No entanto, durante a uma hora de sua fala, não citou os tempos difíceis e mundialmente conhecidos de Papa e Baby Doc e as diversas intervenções dos EUA com mortes e perseguições políticas.
O tom ameno da palestra levou o rumo da discussão para as relações entre o Haiti e o restante da América. Indagado por uma congressista sobre “que fator de identidade une os haitianos assim como, por exemplo, o futebol une os brasileiros”, Idalbert falou de características marcantes do território haitiano: o Haiti é o único país a falar francês na América; as relações entre o Vudu – religião majoritária do país – e o catolicismo são algo diferentes de qualquer outra parte do mundo. Inclusive, apenas no Haiti o Vudu é reconhecido por sua constituição.
Nos momentos finais, o embaixador deu a famosa “cornetada” nas relações entre futebol e política que, no final das contas, serviu de alerta a todos os brasileiros presentes no auditório. “Futebol é muito divertido quando não utilizado para tapar buracos sérios na sociedade. Isso acontece por aqui também?”, ironizou Idalbert.

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