Jornalista renomado esteve na UNESP e dividiu com os alunos um pouco de seu conhecimento
Nilson Lage esteve na UNESP em Bauru para integrar uma banca de seleção para um novo professor. Aproveitando a oportunidade, concedeu uma palestra para os alunos da universidade especialmente os de jornalismo, sobre ideologias e ações de controle sobre jornalistas no mundo contemporâneo.
Com graduação em letras, mestrado em comunicação, doutorado em lingüística e mais de 44 anos na carreira jornalística, o professor Nilson Lage falou sobre a prática da profissão atualmente e como era quando ele iniciou sua carreira. Além das mudanças e avanços tecnológicos, também comentou as ideologias impostas e ações mercadológicas que envolvem toda a notícia, desde sua elaboração até a venda dos jornais que as contém.
Para Lage, o jornalismo é uma profissão é muito exigente, pois os profissionais devem transpor e traduzir os fatos, relatos e idéias de maneira que o público entenda. O essencial nesse entendimento é a linguagem utilizada, sua forma, que pode ser visual, sonora; a combinação, organização dos itens e o conceito, semântica ou significado. Para que o jornalismo não seja simplesmente uma narração factual imbuída de pré-conceitos da empresa e do próprio profissional, deve-se exercer um jornalismo pensante, que mesmo sem opinar, consegue desestruturar as ideologias impostas pelo sistema, mostrar para o público novas perspectivas e entregar a ele o papel de “juiz dos próprios julgamentos e senhor dos próprios conceitos”.
Um tema polêmico tratado pelo professor, são as ideologias presentes em qualquer tipo de narrativa. “O fato não é relevante, o importante é a versão dada a esse ocorrido”, segundo Lage, pode-se entender isso de maneira muito prática, por exemplo, nos relatos históricos, há grande desigualdade na forma de contar o passado e muitas civilizações são esquecidas, devido a essa escolha criteriosa, mas sem fundamentos, como as pré-colombianas e asiáticas. As ciências humanas são inevitavelmente carregadas de ideologias, que pode dar muito conteúdo e embasamento teórico, mas também é capaz de alienar e manipular a opinião pública.
Uma evidência de como o processo histórico e sua moldagem podem influenciar a mentalidade da população está na interdependência entre economia e ciência. Muitos dos produtos que desmantelaram a organização econômica da Europa há muitos anos hoje são alvos de pesquisas científicas que tentam mostrar suas características prejudiciais à saúde, por exemplo, o café, o fumo e o açúcar que são vistos como vilões da saúde, tem uma notável influência cultural, ideológica e política, uma espécie de revanchismo que vem anos atrasado, e sem motivos palpáveis - e atuais - para sua existência.
Quando questionado sobre o avanço das novas mídias, do advento da internet e da extinção do jornal impresso, Nilson Lage respondeu: “A internet tende a reconfigurar os meios de comunicação, o canal de escoação dos veículos e como eles se portam diante da sociedade, mas é algo para médio e longo prazo, não será uma mudança abrupta, será uma evolução. Porém, o fato de existir uma tecnologia mais avançada não necessariamente elimina uma mais antiga, pelo contrário, a tendência é agregar novos conhecimentos. Como no caso do cinema, apesar de existirem vídeos e filmes caseiros, ou então a possibilidade de qualquer um fazer uma gravação de alta qualidade de imagem, ainda existe o cinema, que utiliza cada vez mais essa tecnologia, que teoricamente o destruiria, para se aperfeiçoar e melhorar imagem e áudio”.

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